Cantora conta como superou fase difícil

Por Rodrigo Faour

Rodrigo Faour - Na Revista do Rádio, manchetes como "O que falta para Angela ficar totalmente feliz?" sempre repisavam o fato de que você só não era mais feliz porque não conseguia ter filhos...
Angela Maria
- Isso me dava uma raiva enorme, mexia muito comigo, porque realmente eu não podia mesmo tê-los. E as revistas ficavam repisando esse asssunto. Parece que sabiam que me revoltavam.

Rodrigo Faour - Ao mesmo tempo, você foi nessa época uma das figuras mais fotografadas de nossa música...
Angela Maria
- Fotografavam-me toda semana. Eu gostava de fazer pose. E isso continua até hoje. O meu fotógrafo (Montenegro) quase desmaia comigo... Ele me diz: "Não agüento essa mulher. Ela adivinha a pose, não precisa nem mandar ela fazer" (risos).

Rodrigo Faour - Você sofreu muito na mão de seus antigos maridos e namorados?
Angela Maria
- Eu gosto de falar sobre o passado quando é bonito, maravilhoso. Mas sobre isso não. Passei muito mal na mão desses caras. Fui espezinhada, fui maltratada. Isso interferiu até na minha profissão. Fui muito violentada, enganada. Tanto que eu quase fui a zero nas finanças. Quem me ajudou a levantar foi Daniel. Estava disposta a largar tudo. Eu pensava que, já que ia para a miséria, que devia ir de uma vez, porque parecia que tudo tinha acabado. Fugi até do Rio, fui embora pra São Paulo, não queria ver mais ninguém. Quase tentei o suicídio, estava desesperada com esse pessoal. Pedi ao Daniel, porque vi que era uma pessoa honesta e sincera: "Pelo amor de Deus, tome conta dos meus negócios e me ajude, porque não sei como sair disso". Ele tinha um restaurante que, naquela altura, não podia largar.

Rodrigo Faour - Quando é que as coisas começaram a ficar ruins para você?
Angela Maria
- Em 67, quando me mandei do Rio. Cheguei a São Paulo e pedi ajuda para a Copacabana, minha gravadora. Comprei uma casa e fiquei lá, mas aí começou a cair tudo. Eu, sem nenhuma noção de nada, dava dinheiro para meus assessores pagarem imposto da casa e não pagavam. Até o cemitério que tinha que pagar todo mês, não pagavam. No Natal, mandava garrafas de vinho de presentes para jornalistas. Mas o dinheiro, os fornecedores não viam. Meu nome ficava mal.

Rodrigo Faour - Além de você já não vender tanto disco, teve ainda esse outro lado ruim...
Angela Maria -
Só encontrei gente para me explorar e mais nada, e não me indicar o caminho certo da coisa. Ninguém me ensinou nada. Só o Daniel. "Não estou devendo nada...", eu dizia a ele. Um dia ele viu: a pessoa que recebeu o cheque vir me cobrar. A pesssoa que trabalhava para mim era desonesta. Daniel descobriu todos os ladrõezinhos, meus empregados. Fez uma limpeza geral na minha casa. Depois, voltou tudo ao normal, porque ele tem uma cabeça de 60 anos e eu de 15. É claro que tem meninas de 15 que têm juízo. E eu não, acredito em todo mundo. Melhorei um pouco, mas ainda hoje ele ainda briga comigo: "Você está acreditando nisso?" É que eu ainda acredito nas pessoas...

Rodrigo Faour - Quando você conheceu Daniel sofreu muito preconceito por ele ser cerca de 30 anos mais jovem que você?
Angela Maria
- Com o Daniel foi pior ainda. Não admitiam que eu fosse mais velha que ele. Isso é que machismo. Sempre houve. Não admitiam, como se no amor existisse isso, mas o contrário pode... Eles apostavam. Minha raiva é essa. Batendo papo, beijando no rosto e apostando por trás que ia acabar nossa união pela idade dele e quebraram a cara. Um dava um mês. Agora, estamos há 22 anos juntos.

Rodrigo Faour - Quem era realmente seu amigo no meio musical?
Angela Maria
- Amigo mesmo era o Cauby Peixoto. Freqüentei a casa dele e ele a minha. Sempre foi um gentleman, pessoa maravilhosa. E a voz dele é a única no Brasil que casa com a minha. A gente se entende espiritualmente, no olhar. Os outros cantores eram colegas. A gente se via na rádio, na televisão.

Rodrigo Faour - Você, que começou imitando Dalva de Oliveira, quando virou estrela teve alguma rixa com ela?
Angela Maria
- Conhecia a Dalva pelos corredores das emissoras de rádio. A gente apenas se cumprimentava, não éramos amigas. Eu era uma espécie de rival dela. Ela se assustava porque quando estava no auge da carreira, eu estava começando com força total e já pegando os fãs dela. E ela não gostava muito disso...

Rodrigo Faour - Qual a análise que você faz dos seus 50 anos de carreira?
Angela Maria
- O saldo foi positivo. Teve passagens negativas, tive algumas coisas, como por exemplo esses anos em que passei por essas peripécias ruins, mas tive um anjo salvador, o Daniel. Sabe quando você está caindo? Enquanto eu viver não vou esquecer. Ele me tirou de um fundo de poço e realmente me deu uma mão... Nunca pensei que uma pessoa jovem me desse uma ajuda dessas.

Rodrigo Faour - O que não fez e ainda gostaria de fazer pela MPB?
Angela Maria
- Não fiz muita coisa. Uma coisa é um show no Teatro Municipal do Rio, de alto nível, com orquestra, coral, guarda-roupa... mas com portas abertas ao público que não tem possibilidades financeiras de ver um espetáculo como esse. Outra idéia é a de voltar a gravar, fazer a continuação do CD Amigos (em duetos com os principais expoentes da MPB, de 96).

Voltar