Angela Maria comemora 50 anos de carreira

A lenda viva da MPB revela que já teve medo de ser esquecida e se diz lisonjeada com a homenagem que acaba de receberna Banda de Ipanema (RJ).

Por Rodrigo Faour

"Todos eles estão errados/ A lua é dos namorados". Puxando esse refrão, que embalou os foliões do carnaval de 1961, Angela Maria abriu, no último dia 10, a 36ª edição da Banda de Ipanema no Rio de Janeiro, quando foi homenageada desfilando pelas ruas do bairro sobre um trio elétrico. Consagrada, a cantora emocionou-se ao ver uma multidão de jovens pedindo que ela voltasse a cantar no encerramento da banda. Nada mal para quem está completando neste ano 50 anos de carreira num país em que a mídia não costuma prestigiar veteranos. Nessas cinco décadas, Angela ficou famosa por sua voz quente em interpretações bastante passionais. Influenciou muitas cantoras que a sucederam, como Clara Nunes, Elis Regina e Fafá de Belém. Também foi a mulher que lançou mais discos no país, gravando muitas vezes no primeiro take e sem produtor do lado. Intuitiva, Angela jamais estudou canto e mesmo oriunda de uma família de evangélicos, não se furtou a fugir de casa para perseguir o sonho de ser cantora.

A carreira da Sapoti começou muito bem. Seu segundo disco em 78 rotações, Não Tenho Você (51), foi um grande sucesso. Logo depois, vieram inúmeros outros que a mantiveram nas paradas por pelo menos 15 anos consecutivos, como Nem Eu, Vida de Bailarina, Abandono, Fósforo Queimado, Lábios de Mel, O Arlequim de Toledo, Falhaste Coração e tantos outros. Foi três vezes eleita Rainha do Rádio, entre 53 e 55. Em 58, ela gravaria seu carro-chefe, o mambo cubano Babalu, ao lado da orquestra de Waldir Calmon. A voz quente e de belo alcance vocal, com floreios à Yma Sumac e Dalva de Oliveira - sua principal inspiração e a quem imitava na época de caloura de rádio e crooner do famoso Dancing Avenida - arrebatou o Brasil e a fez ser uma de nossas cantoras mais populares de todos os tempos.

O repertório de Angela sempre foi muito eclético. Era capaz de cantar das coisas mais lindas às maiores tolices, do samba-canção ao tango, do bolero à marchinha de carnaval, mas sempre com tom de nobreza. Nos anos 60, após alguns sucessos kitsch como o cha cha cha Garota Solitária e o samba-canção Cinderela, ela ainda conseguiu se manter gravando - a duras penas. Era uma época difícil para os cantores de sua geração, mas ela emplacou dois sucessos, Gente Humilde (70), sua canção preferida, e Tango para Teresa (75).

Na vida pessoal, Angela também passou maus bocados por ingenuidade, confiando cegamente em maridos e assessores que quase a levaram à falência. Problemas superados, ela se casou com um homem 30 anos mais novo, Daniel D'Angelo, que conseguiu estabilizar sua vida. Foi quando passou a gravar discos mais bem produzidos, com canções de compositores mais modernos - muitos dos quais seus fãs, como Djavan, Gonzaguinha, João Bosco e Moraes Moreira. Mito da música popular brasileira, Angela Maria abre o coração e fala sobre os altos e baixos, os sucessos e a fama que lhe renderam sua longa e intensa carreira.

Rodrigo Faour - Como você se sentiu sendo aclamada por uma multidão de jovens na Banda de Ipanema este ano?
Angela Maria
- Lembro-me de ouvir falar na Banda de Ipanema desde a época da Leila Diniz. Associo à Leila porque ela era muito famosa, alegre, extrovertida, maravilhosa. O Albino Pinheiro me convidava sempre para sair na banda, mas eu sempre dizia que não era a minha praia, que não sabia pular e dançar, que não gostava de carnaval. Dizia: "Vou ficar parada que nem uma múmia, não tenho espírito carnavalesco." "Mas o pessoal quer ver você", ele dizia. Nunca aceitei. Ele morreu e foi um choque tremendo. Albino tinha grandes planos para mim, era uma pessoa que, quando via que eu estava sumida do Rio, me chamava e dizia: "As pessoas têm que saber que você está viva". Porque quando o artista não está com músicas na parada, muita gente pensa que ele já morreu... Albino sempre me deu a mão, sempre muito bom e carinhoso comigo. Quando recebi o convite do irmão dele, Cláudio, para sair na banda nesse ano ainda hesitei, mesmo assim. O Daniel (meu marido) é que disse: "Acho que você deve ir porque quem criou a banda foi o Albino e ele ficaria muito feliz de vê-la ali". Aceitei.

Eu tinha na minha cabeça que a banda era um monte de doido pulando e só. Qual a minha surpresa... É como uma família muito unida. No final, tive que cantar. O povo pensou que era show. Cantei As Pastorinhas, Bandeira Branca, A Lua É dos Namorados - grande sucesso meu de Carnaval -, Ta-Hi, da Carmen Miranda. Uma coisa linda, fantástica! De repente, com o tempo que tenho de carreira e com a minha idade, pensava que só as pessoas do meu tempo é que lembravam de mim. E vi que não é bem assim, porque aqueles jovens eram os que mais se declaravam a mim. "Angela, te amo", diziam. Eram meninos de vinte e poucos anos... Então, pensei: "Nossa, olha aí, eles me conhecem."

Rodrigo Faour - No decorrer de sua carreira, alguma vez você teve medo de ficar esquecida?
Angela Maria
- Se algum cantor, ator ou atriz disser "Imagine, eu não, nunca tive medo", isso é mentira. Todo mundo tem medo de ser esquecido. O cantor quando liga o rádio e não ouve seu disco tocando pensa que já acabou. Tive vários altos e baixos e já fiquei muitas vezes estacionada, sem subir nem descer. Vivi essa situação várias vezes e vi colegas também na mesma situação. Só que, no caso de alguns deles, os holofotes se apagaram de vez, o que me deixou muito triste. Além de ser uma dádiva de Deus o meu cantar, creio que permaneço até hoje por Sua ajuda. Acho que fui escolhida por Deus.

Rodrigo Faour - Nem todas as músicas que você gravou eram maravilhosas. Havia algumas mesmo que eram terríveis... Se arrepende de ter gravado alguma?
Angela Maria
- Ih! Se eu começar a olhar, disco por disco (risos). Uma vez gravei nos Estados Unidos uma do Nelson Ned, que defendi num festival no começo dos anos 70. Esse disco, por exemplo, jogaria no lixo. Teria quebrado... Tem umas músicas horrorosas numa época em que só dava rock balada (N.R.: final dos anos 60). Por isso, tem um disco (N.R. Angela em Tempo Jovem) em que fiz a foto montada numa moto, combinava bem... (risos)

Rodrigo Faour - Você gravou até uma que se chama Quero Morrer de Catapora...
Angela Maria
- É verdade (gargalhadas). Mas aí era marchinha de carnaval, e em carnaval vale tudo...

Rodrigo Faour - Quem escolhia seu repertório e como era o processo de gravação?
Angela Maria
- Antigamente era eu mesma, depois não. Houve época em que gravava sem a presença de um produtor. Não pode! Até para o seu estado de espírito, o produtor tem que estar presente. De repente, você está nervoso, está rouco e pensa que não tem mais voz, então ele chega e diz: "Vamos tomar um café, vamos dar uma paradinha". (risos). O produtor é um padre, um irmão, um pai, um amigo. Por várias vezes, entrei no estúdio ao lado apenas do técnico de gravação. Em 77, gravei assim um disco de fados e outro de tangos. Como faltavam dois discos para eu liquidar meu contrato com a Copacabana, gravei ambos numa semana. Não sei como saiu bonito... Não tive produtor. Deram-me a lista de músicas e disse: "Tudo bem, vou gravar". Estava querendo sair mesmo da gravadora e a lista que me deram era só de canções que eu já conhecia. Como nunca fui problemática para gravar, fiz de uma vez só as 24 músicas. Para mim, estava tudo sempre ótimo. Mas quando o produtor está do lado, ele puxa mais por você. Como com o José Milton, meu produtor há 20 anos. Ele me faz regravar algumas vezes algumas faixas. No meu CD Amigos (1996) fiquei três meses gravando. Ficava revoltada de ter que gravar outras vezes a mesma música e ele brincava: "É bom que ela fica com raiva, aí solta a voz e estoura a caixa de som..." (risos) Nesse disco, às vezes levava uma hora para a faixa sair maravilhosa.

Rodrigo Faour - Sua interpretação sempre foi muito quente...
Angela Maria
- Isso era instintivo. Pegava uma letra e sentia aquilo. É como acontece com esse pessoal que faz novela, que faz um personagem tão perfeito que parece que a própria pessoa é daquele jeito. Cantava a música como se aquilo estivesse acontecendo comigo.

Rodrigo Faour - Muitas cantoras ficaram rotuladas por um estilo - Ademilde Fonseca com o choro, a Carmélia Alves com o baião, Nora Ney com o samba de fossa - mas isso não aconteceu com você...
Angela Maria
- Sempre cantei de tudo. Gravei muito samba-canção, boleros. Fiz cha cha cha uma época para alegrar um pouco os shows. Teve uma época que o samba-canção começou a ficar caidaço, aí passei para o bolero. Aí também resolvi lançar o fado de um jeito diferente, abolerado - e foi aquela "fechação". Depois, só dava rock balada e por aí fui sobrevivendo...

Rodrigo Faour - Havia letras muito machistas em seu repertório... Você gravou até aquele cha cha cha que dizia que "a mulher é como chita..." (risos)
Angela Maria
- É mesmo (risos). Tem aquela também... Amante Bandido ("Me deu muitos beijos, matou seus desejos e depois levantou/ Me pisou me xingou, me humilhou e não disse o motivo/ E o pior disso tudo é que eu sei que sem ele eu não vivo")... E as de dor-de-cotovelo brabas, como A Partida (Ah! Se você me deixar/ Me deixe devagar...), do Evaldo Gouveia e Jair Amorim... Cantei essa música pouco tempo atrás numa festa fechada no Passatempo (SP) e a casa veio abaixo... Acho que as pessoas no fundo gostam e sentem falta dessas músicas de dor-de-cotovelo...

Rodrigo Faour - Uma vez você confessou que todas as vezes que tentou gravar músicas mais chiques, de elite, não aconteceu nada...
Angela Maria
- Sou uma cantora do povo, não sou tipo Elizeth Cardoso. Uma vez a Elizeth foi lá em casa e me perguntou: "Como é que você faz sucesso desse jeito? Qual é o segredo?" E eu respondi: "Deve ser o tipo de música que eu gravo, que não deve ser do seu gosto..." E ela: "Faço tudo para agradar e não acontece nada..." E eu: "É que você faz uma música muito elitizada e o povo não gosta. Procure um Adelino Moreira, um Paulo Marques, um Ari Monteiro... (risos) Pede uma música a eles e veja se você vai estourar ou não..." Mas não era o gênero dela, que gostava mesmo de Vinicius de Moraes, Tom Jobim... Era a sociedade que ia assistir aos shows dela. E ela já estava cansada disso, queria ver o povo junto dela...

Rodrigo Faour - Por outro lado, as músicas mais elaboradas que você gravou são algumas das que vão ficar para sempre...
Angela Maria
- A primeira música que o Tom Jobim fez com Luiz Bonfá fui eu quem gravou, A Chuva Caiu. Na época, teve alguma repercussão, mas não foi um estouro. Também gravei muito Caymmi, Ary, Vinicius...

Rodrigo Faour - Aliás, você chegou a atuar num show ao lado do Dorival Caymmi...
Angela Maria
- Nós fizemos um show juntos em 53 na boate Casablanca, na Praia Vermelha, uma das casas mais bem frequentadas do Rio de Janeiro. O [presidente] Jango ia lá. Fiz o Vogue muito tempo também. Era uma cantora popular, mas era querida também pelo pessoal da alta sociedade nessa época porque fiz muita temporada nessas casas boas. Fui contratada para fazer um mês o show com Caymmi e fizemos oito ou nove meses de casa lotada todo dia. Caymmi é finíssimo. Tinha muita admiração e cuidado comigo porque achava que eu era muito nova. Pedia para o Carlos Machado, Paulinho Soledade: "Deixa ela no camarim e só chama na hora de entrar em cena." Era meio paizão...

Rodrigo Faour - E o Waldir Calmon, quando o conheceu?
Angela Maria
- Conheci gravando Babalu, quando ele pediu à Copacabana para fazer esse disco comigo. Só podiam entrar sucessos.

Rodrigo Faour - Babalu entrou no disco Quando os Astros se Encontram (58) meio por acaso...
Angela Maria
- Foi Waldir quem sugeriu, porque faltava uma música no repertório. Ele tocava esse mambo na boate Arpège e o pessoal gostava . Eu disse a ele que conhecia a música mas não sabia a letra. Quando ele a conseguiu, fomos ensaiar. Aí inventei aqueles floreios vocais por cima da música e ele achou ótimo. A cada ensaio, eu fazia melhor. O técnico ficou tão entusiasmado que gravou o ensaio e depois disse: "Melhor do que isso, duvido que fique." E foi o que ficou para sempre no disco.

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